Cada era fabrica seus próprios deuses. Houve um tempo em que Moloque — uma estátua com cara de boi, peito e pernas humanas — recebia adoração de seus devotos. Abria-se uma porta em seu peito, revelando uma fornalha onde crianças eram queimadas em sacrifício, enquanto uma orquestra tocava para abafar os gritos dos bebês.
Hoje, o deus da nossa era é a tecnologia. Todos os dias, ofertas são entregues a esse “deus algoritmo”, alimentado pela constante doação de dados pessoais. A mudança de altar não alterou a lógica do sacrifício; apenas refinou seus mecanismos, tornando-os invisíveis e voluntários.
O culto ao algoritmo opera no silêncio do toque, na anestesia do feed infinito e na entrega contínua do próprio ser. O dado não é mero número: é a exteriorização da sua atenção, dos seus medos, desejos, buscas noturnas e conexões afetivas. Não se entrega mais um bem material, mas a própria subjetividade fragmentada.
Enquanto o devoto antigo sabia que estava diante de uma estátua, o usuário moderno acredita ser o mestre da ferramenta — sem perceber que se tornou o próprio combustível que alimenta a engrenagem.
Fernando
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