terça-feira, 9 de junho de 2026

NÃO PODEMOS DEIXAR ESSA VIDA SEM FAZER A ENTREGA

O maior exemplo dessa entrega eu vejo em Jesus. Na cruz, de braços abertos, Ele acolhia os odiosos, os irados e toda a incúria humana. Ao acolher a negligência, o ódio e a raiva dessa forma, toca-se no ápice da inteligência espiritual. A reação humana natural ao ódio é o contra-ataque ou o isolamento. Jesus, no entanto, faz o oposto: Ele absorve a sombra e, em vez de devolvê-la, usa o próprio ser como um filtro que a transmuta em amor e esperança.

Essa cena de acolhimento é um espelho do retrato da criação em Gênesis 1. O universo foi criado com seres iluminados — o sol, a lua e as estrelas —, mas também foi constituído pelas trevas, a noite. O cosmos é, essencialmente, o acolhimento da sombra e da luz. O universo não renega a noite; ele a integra. O sol, a lua e as estrelas não guardam o seu brilho para si ou para quando o dia já está claro; a razão de existirem é justamente resplandecer na escuridão. A luz só cumpre o seu propósito quando se desgasta para iluminar o que está escuro.
Os seres iluminados devem entregar o seu brilho à noite. Quando Deus diz: “e fez separação entre a luz e as trevas”, os luminares são colocados no alto. Assim também é a nossa vida: no “microcosmos” que nos rodeia, convivemos com pessoas que habitam a sombra e a luz. Mas, se você reconhece a sua própria luminosidade, deve fazer a sua entrega. Não parta desta vida sem cumpri-la.
Quando nos entregamos, a transmutação acontece. Aqueles que estão ao nosso redor recebem essa luz, esse amor e esse acolhimento. Trazer essa postura para o cotidiano é o nosso grande desafio. Todos nós temos pessoas “na sombra” à nossa volta — indivíduos amargurados, feridos, que tentam nos apagar. Se nos fechamos, a sombra vence. Se nos entregamos através do acolhimento, geramos o espaço necessário para que eles também se iluminem.
Partir desta vida sem “fazer a entrega” seria o equivalente a uma estrela que, em vez de iluminar o céu de alguém, guardou toda a sua energia para si, colapsou para dentro e tornou-se um buraco negro.
FernandoRomero

DIAGNÓSTICO DA POTÊNCIA: VOCÊ NÃO É A SUA DOR

O qual, em esperança, creu contra a esperança…” — Romanos 4:18

Deus para Elias na caverna: “Que fazes aqui, Elias?” Ele o chamou pelo nome para mostrar que Elias não era aquela depressão. Quando a dor dura muito tempo, ela tenta virar sobrenome; mas o texto nos lembra que ela é apenas o cenário. Lembrar o próprio nome é lembrar do propósito que já existia antes de a dor chegar — e que continuará existindo depois que ela passar.
Nós não somos a nossa dor. Somos seres com identidade. Respiramos cerca de 21% de oxigênio e 78% de nitrogênio. O nitrogênio faz parte do processo da vida. As plantas o recebem pelas raízes, e quem o leva até elas são as minhocas, que afofam a terra para que a vida nasça.
Ninguém olha para um jardim florido e elogia a terra revirada ou os vermes que andaram por ali. No entanto, sem esse processo desconfortável e "feio" debaixo da terra, a raiz sufoca. A dor, muitas vezes, é a vida cavando espaço dentro de nós para que possamos nos expandir. Ela machuca porque está ampliando a nossa capacidade de resiliência.
Assim como a árvore precisa romper com a casca velha para que o seu meristema suba com a flor em direção ao sol, assim somos nós. Precisamos romper com a dor porque ela não faz parte de quem somos, não é do material de que somos feitos. É a hora de, em esperança, crer contra a esperança. O diagnóstico real não é a dor; devemos crer no diagnóstico da potência.
Existe uma diferença brutal entre aceitar um tratamento e aceitar uma sentença. Às vezes, precisamos de remédios. "Remédio" vem de remediar, reencaminhar. O medicamento não anula a fé; ele apenas organiza as ferramentas biológicas para que a nossa potência consiga emergir novamente.
Devemos olhar para a dor, mas também para o diagnóstico da potência que já habita em nós. Dessa forma, na força da esperança, cremos contra a expectativa da dor. Assim como a árvore deixa seu passado nas raízes — na casca velha — e dali extrai a seiva, a nossa dor também se tornará passado, e dela extrairemos força e consolo para ajudar outros.
A árvore não carrega a casca velha no topo; ela a deixa na base. O que foi dor vira tronco grosso, vira história, vira estrutura. No fim, a seiva que alimenta as novas folhas passa justamente por onde o tronco já cicatrizou.
FernandoRomero

SUPERE A NECESSIDADE DE VALIDAÇÃO DE TERCEIROS

Esse é um conselho de Jesus. O nosso chão deve ser: “Você é meu filho amado em quem me alegro”.

Essa frase, ecoou antes que Ele fizesse qualquer milagre.
A identidade e o amor do Pai vieram antes da performance. Ser validado por Deus como filho amado deve bastar.
No entanto, erramos gravemente quando buscamos a validação de terceiros:
Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tendes galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já têm o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita;” — Mateus 6:1-3
Jesus é cirúrgico ao dizer que os hipócritas
“já receberam a sua recompensa”. O aplauso humano é uma recompensa imediata, curta, rasa e que evapora no segundo seguinte.
Quem vive disso contrai uma dívida inflacionada: precisa tocar a trombeta cada vez mais alto para continuar sendo notado, exigindo um esforço hercúleo para comprar uma satisfação cada vez menor.
Não é seguro de si quem necessita de aplausos.
Jesus traz esse ensinamento no Sermão da Montanha, Ele está oferecendo uma chave de libertação psicológica e espiritual. O antídoto que Ele receita logo em seguida é o secreto.
Fazer o bem sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita é um exercício de desintoxicação do ego. É treinar a alma para repousar na certeza de que o olhar do Pai — silencioso, constante e amoroso — é perfeitamente suficiente.
FernandoRomero

A CRIANÇA COMO ESTRUTURA: “O ALICERCE OCULTO”

“Deixai vir a mim as criancinhas.”

A criança não deve ser vista apenas como uma etapa do desenvolvimento ou uma fase que o tempo apaga. A criança é uma estrutura.
Nós crescemos, mas essa estrutura não desaparece; ela apenas recebe mais corporeidade, maturidade e cognição na psique. É a essa evolução que chamamos de “adulto”. No entanto, quando a estrutura superior (o adulto cognitivo, social e profissional) sofre uma sobrecarga, a rachadura acontece na base. Se a base foi bem solidificada, ela aguenta o impacto; se foi fragilizada na infância, o adulto balança.
As crianças não sabem dar nome aos seus medos; elas possuem sua própria linguagem, expressa pelo choro e pelo corpo. O adulto não substitui a criança; ele é construído sobre ela. Quando o peso da vida aumenta, é na base — nessa estrutura infantil — que sentimos o impacto.
Quantas vezes choramos por não saber dar nome aos nossos sentimentos? É a fase do incognoscível. Sofremos quando não conseguimos nomear o que nos habita. Por isso, o choro do adulto muitas vezes não é falta de maturidade, mas sim o limite da nossa linguagem racional. Quando a dor, o medo ou a transição superam a nossa capacidade verbal, quem assume o comando é essa nossa estrutura primeva.
Nós não estamos regredindo — estamos apenas operando na nossa camada mais profunda. O choro é a linguagem de quando a gramática do mundo não dá conta do que sentimos.
Jesus sabia disso ao dizer: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos” e “Deixai vir a mim as criancinhas”. O Reino dos Céus pertence às crianças porque ele é voltado àqueles que, como elas, precisam dar nome aos novos fenômenos do Reino. É uma constante evolução.
Ser como criança, é ter a capacidade de se encantar, de reconhecer a própria vulnerabilidade e de estar aberto a aprender o novo. Para entrar em uma nova realidade, precisamos aceitar que ainda não sabemos o nome de todas as coisas. Precisamos da humildade da criança que está, todos os dias, descobrindo o mundo.
FernandoRomero

QUAL PÓ TE COBRE?

Ser discípulo é caminhar nas pegadas do Mestre. É ser coberto pela poeira dos Seus pés (como diz o ditado: “apega-te ao pó dos pés dos sábios”).

Ser discípulo de Jesus é seguir as Suas pisadas. Somos sarados pela poeira dos Seus pés — a poeira da misericórdia, do perdão e do acolhimento. É a poeira que se levanta quando Ele caminha em direção aos marginalizados; o rastro de quem não teme se sujar com as dores e as misérias humanas para trazer cura.
Ser coberto por essa poeira significa que estamos tão perto Dele, na mesma estrada e no mesmo ritmo, que o Seu caminhar inevitavelmente nos impregna.
Por isso, é fundamental nos perguntarmos: Qual poeira tem me encoberto?
Há poeiras que recebem o nome de Jesus, mas não vêm Dele. Muitas vezes, caminha-se por estradas de rigidez, de exclusão e de soberba teológica, “batizando o vento” com o nome de Cristo. Essa poeira não cura; ela cega. É a poeira dos tribunais humanos, que se levanta quando as pessoas correm para apedrejar, e não para acolher. Ela deixa a alma pesada, cinzenta e distante da alteridade. É exatamente dessa poeira que Jesus manda limpar os pés:
“Se alguém não os receber nem ouvir as suas palavras, saiam daquela casa ou cidade e sacudam a poeira dos pés.” (Mateus 10:14)
Se o caminho não produz paz e acolhimento, sacode-se o pó e segue-se adiante. Seguir os passos de Jesus exige a coragem de olhar para as nossas próprias vestes espirituais e perguntar: “Eu estou parecido com o Mestre ou com os juízes da lei?”
As palavras de Jesus são a boa poeira. É a poeira que, ironicamente, em vez de nos sujar, nos lava por dentro através da misericórdia.
FernandoRomero

sexta-feira, 5 de junho de 2026

PORQUE QUANDO VOCÊ AMA, O AMOR EXPLICA O RESTO NO CAMINHO.

Deus é amor. Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo.

Não dá para seguir o Jesus ressurreto; só dá para seguir o Jesus humano. O Jesus ressurreto pertence à eternidade, à glória que nos escapa à compreensão; mas o Jesus histórico, o carpinteiro de Nazaré, esse nos deixou pegadas na poeira. É o Jesus que se assentava com os rejeitados, que multiplicava o pão não apenas para realizar um milagre, mas porque as pessoas tinham fome, e que transformava água em vinho porque uma festa de casamento não podia terminar em constrangimento.
Ele mesmo disse: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”. Repare que Jesus não disse: "Nisto conhecerão que sois meus discípulos: se a vossa escatologia estiver correta ou se o vosso conceito de ressurreição for impecável". O critério de identificação é estritamente relacional e afetivo. Jesus não fundou uma religião; ele praticava o amor como espiritualidade.
Porque quando você ama, o amor explica o resto no caminho.
Você não entende o perdão teorizando sobre ele; você o entende quando abraça quem falhou com você. Você não entende a graça lendo um tratado; você a entende quando oferece um lugar à mesa para quem o mundo descartou. As dúvidas intelectuais, as angústias existenciais e os nós teológicos que parecem insolúveis na solidão do pensamento começam a se desatar quando você se esvazia de si para fazer caber o outro.
A religiosidade institucionalizada muitas vezes comete o erro de amar as ideias sobre Deus mais do que as criaturas de Deus. Hoje, busca-se muito o Jesus ressuscitado nos templos, quando deveríamos procurar o Jesus humano nas ruas. Precisamos de mais mesa, mais jantar, mais festa e mais gente; menos conceito e menos ideia.
Como diria o filósofo Emmanuel Lévinas, é no rosto do outro que a ética nasce. Quando olhamos para as pessoas como "conceitos" ou "ideias", nós as engessamos. Mas quando olhamos para elas através da fome, da dor, do riso e da partilha — na mesa, no jantar, na festa —, nós finalmente as enxergamos. É nos encontros que se pratica o amor e a humanidade.
Fomos ensinados a querer entender tudo antes de caminhar. Queremos o mapa pronto, o conceito fechado, a teologia impecável. Mas o amor não é um conceito; o amor é um evento que só acontece no movimento, no encontro.
É preciso menos sinos e mais risadas em volta da mesa. Menos discursos prontos e mais escuta atenta. No fim das contas, a verdade não é uma tese a ser defendida, mas uma vida a ser compartilhada. É no caminho, dividindo o pão e o tempo, que o amor faz tudo finalmente fazer sentido.
Fernando Romero

PSICOGRAFIA: FENÔMENO DO DIABO, DOM DE DEUS OU RASTRO DA ALMA ?

Emanamos energias psíquicas o tempo todo. O corpo fala, a vibração fala. E existem pessoas que possuem uma escuta ativa capaz de "telegrafar" essas emanações psíquicas do outro.
A psicografia não vem do demônio; ela é uma forma de telepatia. Pode ser encarada como uma revelação e uma comunicação por detrás do inconsciente. Porém, no caso de quem partiu, não é o morto quem fala. As mensagens são psicofísicas. Quem tem o dom de psicografar são pessoas que têm a hipersensibilidade de receber essas informações que, para outros, parecem invisíveis.
A excitação psíquica do ente que ficou, ao falar de quem partiu, já é uma informação quântica, uma emanação rica para quem tem esse dom. Sim, a psicografia é um dom. Dizer que é obra do diabo significa não reverenciar a dor do outro.
A psicografia não é uma mensagem dos mortos, mas sim da energia psíquica que eles deixaram. Todos nós "vazamos" energia psíquica: os sonhos, o suor, entre outros. A alma vaza, se derrama o tempo todo.
A palavra psicografia tem origem na junção de dois termos gregos:
Psykhé: que significa alma, mente ou espírito.
Graphein (ou gráphō): que significa escrever ou registrar.
Quem tem esse dom escreve o que a alma do outro derramou. Jesus falou sobre isso: "Pelos seus frutos os conhecereis". O fruto é a alma da árvore; é o seu "vazamento psíquico". Quem possui esse dom colhe esses frutos que se derramam através da alma e do inconsciente, reúne essas informações de forma consciente e as transmite de uma maneira que possamos compreender.
Não é o morto quem fala. É o rastro que ele deixou. Por onde passa, a lesma deixa um rastro de brilho; mas o brilho não é a lesma, é apenas o rastro do que emana dela. O ser humano faz o mesmo: deixa um "rastro psíquico".
Se o fruto de uma leitura psíquica ou de uma psicografia é o alívio de uma mãe enlutada, a paz de uma família e a reverência à dor, então o fruto é bom. Classificar isso como maligno é uma enorme falta de caridade e de capacidade de acolher o sofrimento alheio. O fruto revela a árvore: se traz harmonia e cura, vem da mesma fonte que rege o amor.
Captar o rastro, ler a energia e enxergar a imagem holográfica do ambiente — antes mesmo que ela se explique logicamente — é operar na dimensão do intangível. É a certeza de que a realidade não se limita àquilo que podemos tocar, mas se estende por tudo o que nossa alma é capaz de emanar e absorver.
Muitos religiosos têm a mania de atribuir casos assim ao demônio, mas, na maioria das vezes, trata-se de um fenômeno holográfico (como um filme que produz uma imagem repetitiva contendo uma informação intensa sobre a memória do lugar).Nesses casos, é importante conhecer o histórico do ambiente. É isso que o possuidor desse dom faz.
Geralmente, são lugares que guardam muita dor, lágrimas e sofrimento, ou que funcionaram como um altar de invocações repetitivas. Quando novas pessoas passam a residir nessas casas, começam a ver coisas estranhas e vultos. Se observarmos bem, são sempre as mesmas imagens que aparecem: é o fenômeno das energias psíquicas, o "suor psíquico" deixado naqueles locais. Funciona como um filme em repetição, pois o lugar está carregado com a memória dos traumas.
Não é a pessoa que sofreu que está se manifestando — ela já está na glória, gozando do descanso do Senhor. São as memórias de sofrimento, os lixos psíquicos que precisam ser limpos daquele espaço. Por outro lado, isso também ocorre de forma positiva: há lugares carregados de paz, harmonia e uma aura boa. Os frutos psíquicos permaneceram ali. São os seus frutos, e o fruto revela a árvore . Traumas ou estados de profunda paz parecem funcionar como um gravador eletromagnético no ambiente. Quem tem a hipersensibilidade (a "escuta ativa") não está conversando com um espírito errante, mas sim sintonizando a frequência daquela memória estocada na matéria. É o inconsciente captando o que está invisível aos olhos, mas presente na atmosfera.
O escritor da carta aos Hebreus chamou a psicografia de fé: afinal, fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem"
Fernando Romero

quinta-feira, 4 de junho de 2026

DISSOLVA-SE PARA DAR SABOR!

O sal só cumpre a sua vocação de dar sabor quando desaparece. Há um paradoxo lindo nisso: o crescimento interior exige o esvaziamento de si — a kenosis. Para que o tempero do Reino apareça, o nosso ego precisa se dissolver na panela da vida. Não se trata de perder a identidade, mas de encontrar a nossa verdadeira essência no anonimato do amor cotidiano.

Existe uma tentação contemporânea gigantesca em transformar a espiritualidade e a própria identidade em um espetáculo de autoafirmação, onde o ego anseia por ser o ingrediente principal em evidência, e não o tempero silencioso.
Enquanto o ego busca o aplauso, o palco e o reconhecimento visual, o sal trabalha nos bastidores. Ninguém elogia um prato dizendo: “Nossa, que sal gostoso!”, mas sim: “Que comida saborosa!”. O sucesso do sal é fazer o outro — a vida, o próximo, o Reino — brilhar.
No cotidiano, o amor real, aquele que sustenta as relações e humaniza os processos, raramente é barulhento. Ele se manifesta na escuta atenta, na paciência com as fragilidades alheias e na renúncia voluntária de querer ter sempre a última palavra.
FernandoRomero

A NEUROSE DO VOCÊ NÃO ME REPRESENTA

Estamos vivendo uma época doentia de uma neurose patológica que é “você não representa” ou “você me representa”

Quem é de direita diz que Lula não os representa , quem vota já esquerda diz que os Bolsonaro não representa.
Há também aqueles neuróticos seguidores dos influenciadores digitais que os representa.
Isso mostra o quanto perdemos referência do próximo. Só pode te representar quem te entrega pela proximidade. Os que conhece suas dores, sua história. Porque não é sua esposa, filho, pai, um amigo próximo que te representa? Deveria ser. O próximo (o cônjuge, o amigo, o vizinho) dá trabalho. Ele tem defeitos, diverge, exige paciência e presença. É muito mais fácil “amar” um algoritmo ou um líder político distante do que suportar e acolher as dores de quem está dividindo a mesa com a gente.
Ficamos digital demais enquanto a alma pede um abraço humano.
Deixamos de ser pessoas e passamos a ser algoritmos.
O influenciador ou o político na tela não são pessoas reais para o indivíduo; são apenas telas em branco onde as pessoas projetam seus próprios desejos, frustrações e o ego. Quando o outro na tela falha em refletir exatamente o que o seguidor quer, vem a crise existencial do “você não me representa”.
A grande armadilha da política e do mundo digital hoje é fazer o indivíduo acreditar que uma figura pública que ele nunca viu — e que mal sabe que ele existe — pode carregar a sua identidade. É uma transferência de responsabilidade existencial. As pessoas terceirizam a própria voz para algoritmos e depois se sentem vazias.
Essa transferência que as pessoas fazem para as figuras públicas não seria, no fundo, um medo profundo de olhar para dentro e assumir a responsabilidade pelas próprias dores? Afinal, culpar quem “não nos representa” é muito mais confortável do que construir representatividade real nas nossas pequenas ações diárias.
FernandoRomero

NÃO ABRACE ESSE GUERRA

Tem guerras que não devemos abraçar. Sou de uma religião e você de outra, aí começa um campo de batalha entre você e eu: não abrace esse guerra. Voto em um partido e você em outro; tudo bem pensarmos diferentes. Não abrace essa guerra.

Nosso psíquico fica um campo minado e nossa saúde mental fica destruída como em um campo de batalha.
Porque sangrar o outro é a si mesmo abraçando guerras desnecessárias ?
Psicologicamente e eticamente falando, o outro não é um universo totalmente isolado de nós. Quando despejamos ódio, intolerância ou uma necessidade doentia de estar certo sobre alguém por causa de religião ou política, o primeiro ambiente a ser envenenado é o nosso próprio ecossistema mental. Para disparar um canhão contra o vizinho, a pólvora precisa queimar primeiro dentro de nós. O desgaste emocional, a adrenalina do confronto e o rancor nascem e residem em quem ataca.
Quando transformamos divergências em trincheiras, ativamos um estado constante de alerta (mecanismo de luta ou fuga). Passamos a enxergar o mundo não como um lugar de convivência, mas como uma ameaça latente. Isso gera:
Anedonia (perda de prazer nas coisas simples).
Ansiedade crônica e hipervigilância.
Erosão das relações que realmente importam.
FernandoRomero

OS VENDILHÕES DO MEDO: QUANDO A MISÉRIA HUMANA GERA VOTOS

“E foram ter com Jesus, e viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido e em perfeito juízo, e temeram." — Marcos 5:15

O endemoninhado de Gadara era a vitrine do mal — a personificação da opressão exposta em um ponto geográfico específico. No entanto, Jesus liberta e cura esse homem, devolvendo-lhe o perfeito juízo. O que se segue, contudo, é o espantoso retrato da hipocrisia: a multidão expulsa Jesus daquela região.
Esse relato revela uma estrutura social moldada para servir aos que se autointitulam "perfeitos". Muitas vezes, a sociedade prefere que a marginalidade e o sofrimento continuem confinados em "currais geográficos", desde que sirvam aos desejos ocultos dos chamados cidadãos de bem.
A Avenida Augusta, em São Paulo, funciona como um desses palcos modernos de Gadara, onde o mal parece ter permissão para residir. Na calada da noite, os hipócritas que arrotam santidade vão às escondidas ao encontro de travestis e prostitutas — os "gadarenos" do nosso tempo. Trata-se de um mal estrutural: um território demarcado para descarregar a verdadeira perversidade mascarada pela moralidade.
Essa dinâmica opera por meio de duas violências brutais:
1 A violência do uso: Os marginalizados são transformados em mercadoria e em depósito para as frustrações e desejos recalcados da sociedade.
2 A violência do descarte: São publicamente humilhados e desumanizados para que os opressores mantenham suas aparências de "perfeito juízo".
No relato bíblico, o homem possuído vivia nos sepulcros, clamando e ferindo-se com pedras. Ele era o "monstro" local. A população daquela região já havia aprendido a conviver com o horror; contanto que ele ficasse isolado no cemitério, o status quo estava garantido.
Para que o discurso do "cidadão de bem" funcione, é obrigatório que exista um monstro.Se o "monstro" for curado, humanizado e reintegrado, o opressor perde o seu principal bode expiatório. Sem o "mal exposto" para apontar o dedo e gerar pânico moral, a bancada do moralismo perde votos, os vendilhões do templo perdem dízimos baseados no medo, e a própria podridão interna dessas lideranças é desmascarada.
Hoje, esses novos "gadarenos" sofrem a mesma desumanização sob o peso de discursos políticos e religiosos — proferidos por líderes que, não raro, os procuram secretamente para satisfazer seus próprios fetiches.
Nos evangelhos, a cidade ficou revoltada com Jesus por Ele ter colocado fim ao espetáculo da maldade. Em vez de se alegrarem com a restauração do homem, preferiram expulsar o Libertador.
Quando Jesus o cura, o texto sagrado destaca que o homem foi encontrado:
Assentado (em paz, livre da tortura mental);
Vestido (com sua dignidade humana devolvida);
Em perfeito juízo (com a mente sã).
Se Jesus fizesse isso hoje, como reagiriam os que lucram com as drogas, com a exploração sexual e com o proxenetismo? Certamente, O expulsariam novamente.
A reação de Gadara foi motivada por dois fatores que se repetem na atualidade:
O prejuízo econômico: Os porcos morreram. A libertação daquele homem custou caro para a economia local.
A quebra do espelho: A presença de Jesus e a restauração do oprimido expuseram a falência moral daquela comunidade. Eles preferiam os porcos e o homem isolado nos sepulcros à santidade perturbadora de Cristo.
A economia do crime, o tráfico de entorpecentes, as redes de exploração sexual e os cafetões movimentam bilhões. Mais do que isso: a bancada do moralismo perderia o seu "espantalho". Para que muitos políticos e religiosos garantam votos e fiéis, eles necessitam apontar para um inimigo comum, um "mal exposto". Sem o oprimido para demonizar, a própria hipocrisia deles seria irremediavelmente desmascarada.
FernandoRomero

AMAR É QUERER O BEM; GOSTAR É QUERER PERTO

O direito de impor limites saudáveis dentro da própria família.

Esse é um princípio fundamental que precisamos aprender. Jesus nos ensinou a amar até mesmo os nossos inimigos, mas só devemos manter por perto quem realmente gostamos. Existem pessoas que simplesmente precisamos deixar ir.
Pode soar duro, mas, na própria família, você já deve ter percebido que há pessoas com quem você só mantém vínculo por força do sangue. Se não fossem parentes, vocês não teriam qualquer ligação. A verdade é que, mesmo em família, ninguém é obrigado a gostar de ninguém. No entanto, devemos amar — no sentido de querer o bem.
No vocabulário da psicologia sistêmica, a diferenciação é justamente a capacidade de pertencer a uma família sem perder a própria individualidade; é reconhecer onde termina o outro e onde começa você.
Portanto, quem você ama, deixe ir e queira bem. Mas mantenha por perto apenas quem você realmente gosta. Viver em débito afetivo não é saudável. Quando forçamos a proximidade com quem não temos afinidade (ou, pior, com quem é tóxico), criamos um cenário de falsidade ou de conflito constante.
A máxima “Amar é querer o bem, e gostar é querer perto” desata um nó que sufoca muita gente: a culpa de não conseguir ter afinidade com quem compartilha o mesmo sangue.
“Parentesco é destino; família é escolha.”
Romper com a obrigação de gostar de alguém apenas por causa do sobrenome não é falta de amor. Pelo contrário: às vezes, deixar ir é a maior prova de amor-próprio — e de respeito ao outro — que alguém pode dar. É uma forma de validar o espaço do outro, sem permitir que ele invada o seu.
Fernando Romero