O maior exemplo dessa entrega eu vejo em Jesus. Na cruz, de braços abertos, Ele acolhia os odiosos, os irados e toda a incúria humana. Ao acolher a negligência, o ódio e a raiva dessa forma, toca-se no ápice da inteligência espiritual. A reação humana natural ao ódio é o contra-ataque ou o isolamento. Jesus, no entanto, faz o oposto: Ele absorve a sombra e, em vez de devolvê-la, usa o próprio ser como um filtro que a transmuta em amor e esperança.
Essa cena de acolhimento é um espelho do retrato da criação em Gênesis 1. O universo foi criado com seres iluminados — o sol, a lua e as estrelas —, mas também foi constituído pelas trevas, a noite. O cosmos é, essencialmente, o acolhimento da sombra e da luz. O universo não renega a noite; ele a integra. O sol, a lua e as estrelas não guardam o seu brilho para si ou para quando o dia já está claro; a razão de existirem é justamente resplandecer na escuridão. A luz só cumpre o seu propósito quando se desgasta para iluminar o que está escuro.
Os seres iluminados devem entregar o seu brilho à noite. Quando Deus diz: “e fez separação entre a luz e as trevas”, os luminares são colocados no alto. Assim também é a nossa vida: no “microcosmos” que nos rodeia, convivemos com pessoas que habitam a sombra e a luz. Mas, se você reconhece a sua própria luminosidade, deve fazer a sua entrega. Não parta desta vida sem cumpri-la.
Quando nos entregamos, a transmutação acontece. Aqueles que estão ao nosso redor recebem essa luz, esse amor e esse acolhimento. Trazer essa postura para o cotidiano é o nosso grande desafio. Todos nós temos pessoas “na sombra” à nossa volta — indivíduos amargurados, feridos, que tentam nos apagar. Se nos fechamos, a sombra vence. Se nos entregamos através do acolhimento, geramos o espaço necessário para que eles também se iluminem.
Partir desta vida sem “fazer a entrega” seria o equivalente a uma estrela que, em vez de iluminar o céu de alguém, guardou toda a sua energia para si, colapsou para dentro e tornou-se um buraco negro.
FernandoRomero
Nenhum comentário:
Postar um comentário