O sal só cumpre a sua vocação de dar sabor quando desaparece. Há um paradoxo lindo nisso: o crescimento interior exige o esvaziamento de si — a kenosis. Para que o tempero do Reino apareça, o nosso ego precisa se dissolver na panela da vida. Não se trata de perder a identidade, mas de encontrar a nossa verdadeira essência no anonimato do amor cotidiano.
Existe uma tentação contemporânea gigantesca em transformar a espiritualidade e a própria identidade em um espetáculo de autoafirmação, onde o ego anseia por ser o ingrediente principal em evidência, e não o tempero silencioso.
Enquanto o ego busca o aplauso, o palco e o reconhecimento visual, o sal trabalha nos bastidores. Ninguém elogia um prato dizendo: “Nossa, que sal gostoso!”, mas sim: “Que comida saborosa!”. O sucesso do sal é fazer o outro — a vida, o próximo, o Reino — brilhar.
No cotidiano, o amor real, aquele que sustenta as relações e humaniza os processos, raramente é barulhento. Ele se manifesta na escuta atenta, na paciência com as fragilidades alheias e na renúncia voluntária de querer ter sempre a última palavra.
FernandoRomero
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