“E foram ter com Jesus, e viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido e em perfeito juízo, e temeram." — Marcos 5:15
O endemoninhado de Gadara era a vitrine do mal — a personificação da opressão exposta em um ponto geográfico específico. No entanto, Jesus liberta e cura esse homem, devolvendo-lhe o perfeito juízo. O que se segue, contudo, é o espantoso retrato da hipocrisia: a multidão expulsa Jesus daquela região.
Esse relato revela uma estrutura social moldada para servir aos que se autointitulam "perfeitos". Muitas vezes, a sociedade prefere que a marginalidade e o sofrimento continuem confinados em "currais geográficos", desde que sirvam aos desejos ocultos dos chamados cidadãos de bem.
A Avenida Augusta, em São Paulo, funciona como um desses palcos modernos de Gadara, onde o mal parece ter permissão para residir. Na calada da noite, os hipócritas que arrotam santidade vão às escondidas ao encontro de travestis e prostitutas — os "gadarenos" do nosso tempo. Trata-se de um mal estrutural: um território demarcado para descarregar a verdadeira perversidade mascarada pela moralidade.
Essa dinâmica opera por meio de duas violências brutais:
1 A violência do uso: Os marginalizados são transformados em mercadoria e em depósito para as frustrações e desejos recalcados da sociedade.
2 A violência do descarte: São publicamente humilhados e desumanizados para que os opressores mantenham suas aparências de "perfeito juízo".
No relato bíblico, o homem possuído vivia nos sepulcros, clamando e ferindo-se com pedras. Ele era o "monstro" local. A população daquela região já havia aprendido a conviver com o horror; contanto que ele ficasse isolado no cemitério, o status quo estava garantido.
Para que o discurso do "cidadão de bem" funcione, é obrigatório que exista um monstro.Se o "monstro" for curado, humanizado e reintegrado, o opressor perde o seu principal bode expiatório. Sem o "mal exposto" para apontar o dedo e gerar pânico moral, a bancada do moralismo perde votos, os vendilhões do templo perdem dízimos baseados no medo, e a própria podridão interna dessas lideranças é desmascarada.
Hoje, esses novos "gadarenos" sofrem a mesma desumanização sob o peso de discursos políticos e religiosos — proferidos por líderes que, não raro, os procuram secretamente para satisfazer seus próprios fetiches.
Nos evangelhos, a cidade ficou revoltada com Jesus por Ele ter colocado fim ao espetáculo da maldade. Em vez de se alegrarem com a restauração do homem, preferiram expulsar o Libertador.
Quando Jesus o cura, o texto sagrado destaca que o homem foi encontrado:
Assentado (em paz, livre da tortura mental);
Vestido (com sua dignidade humana devolvida);
Em perfeito juízo (com a mente sã).
Se Jesus fizesse isso hoje, como reagiriam os que lucram com as drogas, com a exploração sexual e com o proxenetismo? Certamente, O expulsariam novamente.
A reação de Gadara foi motivada por dois fatores que se repetem na atualidade:
O prejuízo econômico: Os porcos morreram. A libertação daquele homem custou caro para a economia local.
A quebra do espelho: A presença de Jesus e a restauração do oprimido expuseram a falência moral daquela comunidade. Eles preferiam os porcos e o homem isolado nos sepulcros à santidade perturbadora de Cristo.
A economia do crime, o tráfico de entorpecentes, as redes de exploração sexual e os cafetões movimentam bilhões. Mais do que isso: a bancada do moralismo perderia o seu "espantalho". Para que muitos políticos e religiosos garantam votos e fiéis, eles necessitam apontar para um inimigo comum, um "mal exposto". Sem o oprimido para demonizar, a própria hipocrisia deles seria irremediavelmente desmascarada.
FernandoRomero
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