quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O INCONSCIENTE VAZA PELA BOCA

O que é um vazamento? É aquilo que escapa pelas frestas porque o interior já está saturado. Jesus dizia que a boca fala do que o coração está cheio.

Paradoxalmente, um coração vazio transborda fraudes — e esse fingimento também encontra um meio de vazar. Afinal, a nossa mente profunda não é um baú estático; ela funciona por pura hidráulica.
Nos momentos de tensão, verbalizamos justamente o que estava represado. É quando soltamos certas frases e justificamos: “foi sem querer”. Mas será mesmo?
Para o inconsciente, o “sem querer” não existe. Quando a barreira do controle consciente racha — seja pelo nervoso, pelo cansaço, pelo efeito do álcool ou pela pressa —, o entulho guardado no fundo do rio inevitavelmente vem à tona. O lapso verbal é apenas a desculpa diplomática que o ego utiliza para tentar remendar o estrago social.
Passamos a vida policiando pensamentos para nos adequarmos ao mundo, mantendo a polidez ou escondendo feridas e verdades desconfortáveis. Nós recalcamos o que incomoda. O problema é que o inconsciente não é um arquivo morto; ele é dinâmico, vivo e exerce uma pressão constante.
A fotografia dessa dinâmica são as palavras que nos escapam no calor do momento. Esse deslize é o flash que captura a realidade oculta; é o clique certeiro. O chamado “ato falho” rasga a névoa da nossa narrativa oficial — aquela postura que criamos para parecer instáveis, educados e sob controle — e expõe a verdade crua do desejo ou do conflito por um milésimo de segundo.
A boca fala do que o peito está cheio. Psicologicamente, o nosso núcleo emocional mais íntimo costuma transbordar daquilo que tentamos, a todo custo, fingir que não existe. É o avesso do tecido social que insiste em se manifestar pela costura que abriu.
Fernando Romero

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